quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Mea culpa

Pensei que, ao terminar o doutorado, viria correndo aqui contar coisas interessantes, não deixando morrer os posts em tão longo tempo sem atividade. Qual nada! Já se vai quase um ano e tudo o que consegui foi deixá-lo ainda mais parado...

Retomo com uma promessa a mim mesmo: vou voltar! (Ou seria isso uma ameaça?)

A quem interessar possa, minha tese "Isso era trabalho de mulher": mídia e memória discursiva de masculinidade em trabalho do lar está disponível aqui, onde também é possível encontrar minha dissertação A representação dos atores sociais e a imagem da mulher no contexto do discurso feminista em contos de Marina Colasanti.

domingo, 29 de outubro de 2017

Sobre masculinidades em movimento


Como penúltima atividade do doutorado (a última foi a defesa da tese), fui a Santiago de Chile apresentar uma comunicação num congresso. Fiquei surpreso com a quantidade de pais que vi pela rua (e tão poucas mães), ora empurrando carrinhos de bebê, ora de mãos dadas às crianças ao levá-las para a escola, ora num restaurante a almoçarem com seus filhos ou filhas, tudo no cotidiano, ao longo da semana. Ao passar pelo Centro Cultura La Moneda, me deparei com uma exposição do fotógrafo Johan Bävman, que procurou retratar cenas do cotidiano de pais que tiraram licença paternidade quando seus filhos nasceram (confira aqui), entendi que se tratava de uma campanha no Chile, uma mudança de discurso sobre a masculinidade, o papel do homem no lar.  Junto às fotos dos suecos, podíamos apreciar fotos de chilenos em situações similares, fotos enviadas, pelos próprios pais ou familiares, a um concurso inspirado no fotógrafo sueco.

Apesar de ter estudado a linguagem, meu trabalho recai sobre o tema de homens em atividades do lar, na limpeza da casa e da roupa e no cuidado com os filhos, um ponto nevrálgico na luta pela igualdade de gênero. Logo, essa perspectiva chilena me agradou muito, embora trata-se apenas do cuidado com filhos e filhas. Durante minha apresentação, falando da resistência do homem brasileiro à divisão das tarefas do lar, uma chilena que assistia à apresentação me disse que no Chile é igual. Ao menos lá existe um movimento pela mudança, com exposições como essa, sites e páginas no Facebook sobre o tema masculinidade e igualdade de gênero, ao contrário do retrocesso que estamos enfrentando no Brasil. Apesar de muitos estudos e eventos sobre o tema estarem acontecendo por aqui, tudo parece estar confinado na academia... 

Aqui, a exposição do fotógrafo sueco ficou restrita a comentários em programa de TV (a exemplo do Saia Justa, do Canal GNT), alguma matéria em revista (veja a Marie Claire) e posts aqui e ali em redes sociais.



P.S.: Tese defendida, retorno à vida normal...


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Poesia por inspiração

Inspirado no post de um amigo, veio um poeminha.

A cor da luxúria
de Elir Ferrari

Amo todas as cores que há nas coisas
E todas as coisas que há em cores
Amo minha cor definida como parda
E, logo que se tarde, que a pele arda
Sob o céu ensolarado de azuis alaranjados
Me deixando da cor do jambo
De puro escambo com a pele que seduz
E que, mais tarde, se faz luxúria à meia-luz!

domingo, 4 de dezembro de 2016

Para um bom entendedor...

Não gosto de textos/falas que desqualifiquem pessoas, ou coisas. Os textos, ao serem ditos, permitem a construção de uma imagem de quem está dizendo e não gosto de textos arrogantes, porque são portadores da arrogância de quem os diz.

Uma vez um professor de literatura disse que Mia Couto (escritor moçambicano) não chega a ser um Guimarães Rosa... "não chega a ser" significando que a obra de Mia Couto era inferior à de Guimarães Rosa. Mas como comparar esses dois autores? De épocas tão diferentes, países tão diferentes? Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, James Joyce tiveram seus estilos próprios, muito peculiares. Mia Couto assume a influência de Guimarães Rosa, assim como Guimarães Rosa assumiu a influência de James Joyce. Embora seja possível traçar semelhanças estéticas, cada um tem sua particularidade. São autores distintos, contextos históricos distintos, temas distintos, qualidades distintas.

O que o tal professor pretendia, de fato, era ressaltar sua alta qualificação literária como uma patente que lhe autoriza expressar o desdém - um discurso de autoridade. Pois, saiba ele, não conseguiu atingir o seu objetivo, uma vez que esse lugar ele deixou de ocupar no meu mais simples – mas não simplório – entendimento do que é literatura. Ele quis aproveitar a oportunidade e acabou por perder a patente que poderia ter conquistado...

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Linguagem e violência simbólica, contribuições ao debate

"[A] linguagem nos faz seres instáveis,
daí que é impossível não sermos
afetados pela palavra do outro. Essas
palavras perturbam a condição
narcísica que é condição estrutural do Eu.
(...)  [T]udo que não pode ser
questionado ou que não é assimilado
por um processo interno de reflexão
exige do sujeito uma crença delirante."
- trechos do texto postado no FB
por Marcelo Veras


O post de hoje vem das contribuições de um amigo (talvez único) leitor deste blogue... Ele me marcou no post “Como ensinar (o) mal - ou, tomando partido” no Facebook (FB) de Marcelo Veras e no vídeo “o texto baba” de Suely Rolnik. Ambos abordam o fato de que somos atingidos pela linguagem, numa perspectiva psicanalítica. Faço aqui considerações breves, porque não é minha área de estudo, motivo pelo qual já peço desculpas.

A psicanálise, cuja criação é atribuída a Freud, é baseada na linguagem. Em linhas gerais (e rasas), consiste em falar (embora ao falarmos também nos ouvimos), da parte do paciente, e ouvir e analisar (análise não deve ser confundida com interpretação), da parte do psicanalista. Lacan disse que a mente está estruturada como uma linguagem. O vídeo e o post demonstram, por razões diferentes – o vídeo, para explicar um conceito objeto de um seminário (o texto baba/novos povoamentos); o post, para criticar as leis que tentam impor a “escola sem partido” (minúsculas minhas) –, a influência da linguagem sobre nós, da importância da fala (e, acrescento, de outras formas de linguagem) do outro tem sobre nós.

Clique para assistir ao vídeo "Suely Rolnik e o texto baba"

Na minha área de estudos – a Análise do Discurso (de linhagem francesa) – muitas vezes lançamos mão de conceitos da psicanálise para fundamentarmos alguns aspectos da análise discursiva. Apesar de serem um tanto técnicos,  eu recomendo a leitura das duas indicações de meu amigo sapoprincipe, porque são [texto e vídeo] claros: o post do FB ressalta a importância da linguagem nas manobras do governo para evitar a formação de seres pensantes; o vídeo sobre o “texto baba” nos revela que o corpo tem uma linguagem própria, que ao subjugarmos esse fato, perdemos a noção de sua existência e dimensão.

Em algum post futuro, volto ao assunto, numa abordagem discursiva. Até lá.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Da violência simbólica: a linguagem




https://www.youtube.com/watch?v=H3ikWYyUHrI
 Entre eu e você existe
A notícia que nos separa
Eu quero que você me veja nu
Eu me dispo da noticia
E a minha nudez parada
Te denuncia e te espelha
Eu me delato
Tu me relatas
Eu nos acuso e confesso por nós
Assim me livro das palavras
Com as quais
Você me veste.

- trecho do texto de Fauzi Arap


Somos seres de linguagem. Nomeamos coisas para poder dizê-las, recebemos nomes para que possam se referir a nós. O que não pode ser dito, não existe, precisamos dizer as coisas para compreendê-las. Judith Butler (1997)* diz que um xingamento nos ofende porque somos seres de linguagem. E, se nos ofende, isso significa que a linguagem nos afeta, que o dizer é um ato que chega até nós no que temos de mais íntimo. Mesmo que não se tenha a intenção, um comentário pode, involuntariamente, ofender. Butler tenta traçar uma análise aprofundada sobre os limites entre a liberdade de expressão e o crime de injúria. O propósito dela é jurídico, vale a pena a leitura do livro Excitable speech**. Aqui, porém, vou apenas ilustrar como a linguagem sempre nos afeta. E não é difícil entender.

Para dar um exemplo: num grupo de homens em que um dos membros é homossexual, mas os demais membros do grupo não sabem, certamente o assunto sobre mulheres surge em algum momento. Não que o homossexual vá se sentir excluído da conversa, mas certamente sentirá um deslocamento, como se tivesse do lado de fora da conversa, mesmo que se esforce para se manter no assunto. Ou, em nossa sociedade de ditames de beleza e de saúde, o simples fato de uma pessoa estar fora da curva faz com que tente se adaptar (eu, por exemplo, faço uma caminhada de 7 km por dia, porque um médico me disse que preciso perder 7 kg...). Uma mulher que tenta engravidar e não consegue, sente fundo quando ouve outras mulheres falando da facilidade com que engravidaram...

Uma pessoa que é diminuída verbalmente por alguém pode reagir, ou não. Muitas vezes, sequer percebemos que alguém nos está pondo pra baixo, repetindo que não somos capazes, ao longo de anos... e acabamos acreditando, assimilando, e a sensação de incapacidade acaba sendo inculcada em nós, inconscientemente. Conheço muita gente que se julga incapaz de passar no vestibular, porque os discursos criam uma aura de dificuldade em torno das provas. Conheço muita gente bonita que acredita que é feia, porque sua beleza não é a mesma que a da Gisele Bünchen. Uma fofoca pode construir o caráter de alguém, da mesma forma que pode acabar com ele.

Não temos como fugir, dominamos a linguagem na mesma medida em que a linguagem nos domina. Dessa forma, a linguagem é uma arma poderosa na violência simbólica. Precisamos tomar cuidado com ela.



* Judith Butler é filósofa americana e discute questões de gênero.

** BUTLER, Judith. Excitable speech: a politics of the performative. New York, NY: Routledge, 1997.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Ideias (não)originais

A obra é de 1995, mas não tive contato com ela até hoje. Os desenhos feitos por Leandro Ferra sob encomenda para este blog são de 2005... À época, achei que tive uma ideia original.

Artista: Charles Ray
Título: Puzzle Bottle
Ano: 1995.
Acervo do Whitney Museum of American Art, New York

 
Artista: Leandro Ferra
Títulos: Homem na garrafa1 e Homem na garrafa 2
Ano: 2005 Acervo do Elir Ferrari, Vila Isabel, Rio de Janeiro

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Poesia numa hora dessas: Minha pele sua

Minha pele sua
de Elir Ferrari

Habito uma pele que é diferente da de outrora
da infantil ingênua, pele lisa e elástica
da púbere agitada, tangível e atenta
da adolescente rebelde, sensível e aguda

Habito uma pele endurecida e desgastada
pela vida, pelo tempo, pelo tento
pelas forças que me determinam
pelos muitos anos que já não tenho

A pele que habito não é minha
nunca foi, pois que eu supunha
ser aquela que outros me impõem

A pele que habito é a pele tecida
que imita, que simula, que insiste
que eu a habite.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Da violência simbólica: tarefas do lar

Precisamos estar atentos à violência simbólica, porque ela não mostra a cara. É aquele tipo de coisa que não percebemos, até que um dia nos damos conta de que já fomos atingidos por ela e estamos atolados, nela, até o pescoço.

A violência física é fácil de ser identificada.  Um tapa, um chute, uma cotovelada são vistos e sentidos claramente. O assédio moral e/ou psicológico, ou ainda o assédio sexual, pode não ser tão evidentes, mas há aí algo de visível que permite sua identificação. Já a violência simbólica é invisível, porque não está na ordem do feito/agido, do dito ou do mostrado, mas do sensível. Ela perpassa as violências física, moral, psicológica e sexual, ela é aquilo que marca a pessoa de forma definitiva, porque é uma marcação na alma.

O que é, então, violência simbólica?  A violência geralmente surge em meio a uma relação de dominação/dominado (e o mundo é estruturado nessa relação). Nela, nossos ‘corpos socializados’ não percebem aquilo que não é natural, mas que está naturalizado nas práticas sociais repetidas constantemente. Aprendemos que cuidados com casa e filhos é coisa de mulher e trabalhar em uma empresa é coisa de homem. Se bem que hoje existem muitos homens que cozinham... mas são chefs. Geralmente cozinham para receber amigos, ou agradar a esposa. A comida do dia a dia, o arroz com feijão diário, a alimentação da família ficam a cargo da mulher. A própria casa é dividida em cômodos e áreas definidos pelo gênero: garagem e escritório são lugares de homem; cozinha e área de serviço, de mulher. É claro que as coisas estão mudando, mas nem tanto, nem há tanto tempo. Isso é só para ficar num só exemplo. Ao se dedicar no cuidado da casa, dos filhos e do marido, a mulher acaba não usufruindo de muita coisa (porque fica extremamente ocupada com suas tarefas “do lar”), uma delas é a falta de uma remuneração por um trabalho qualificado e a liberdade de usar o seu dinheiro da forma que melhor lhe convier. Muitos dirão, ah, mas se a mulher é casada com um homem honesto, carinhoso, atencioso, que não lhe deixe faltar nada, que lhe dá toda a liberdade possível? Ao menos sua independência e liberdade estará subordinada aos desejos desse homem, mesmo que seja afetuoso e dê liberdade total à mulher (homens raríssimos, ou inexistentes)... Qualquer falta de independência afeta o ser humano de forma – pra mais ou pra menos – violenta, não uma violência visível, mas uma que nos impede de existirmos como qualquer outro ser humano que possa gozar plenamente de seus direitos. Isso é tão naturalizado que sequer percebemos o quanto a mulher é colocada num lugar de desprestígio. (*)
Vendedora de rosas,
escultura em papel de Nane Ferrari

Tive recentemente bom exemplo do papel subordinado da mulher. Uma amiga que foi criada para ser independente, sequer aprendeu a cozinhar, lavar roupa ou fazer faxina. Formada em Engenharia Química, já trabalhando numa multinacional da indústria farmacêutica, entrou no mestrado, onde conheceu o grande amor de sua vida. Ele, formado em Farmácia, também trabalhando numa empresa da indústria farmacêutica... mas nacional. Tal como ela, não era dotado das prendas do lar. Estavam, pois, em pé de igualdade de gênero... Tão grande foi o amor, que se casaram.  Inicialmente, comiam fora e contrataram uma diarista para cuidar da limpeza da casa... Lavar roupas, era fácil, bastava colocar na máquina e depois pendurar. Mas, mesmo assim, com as despesas caras e planos de viagem e filhos, decidiram restringir os gastos. Adivinha quem aprendeu a cozinhar? Adivinha quem passou a chegar em casa e fazer uma faxina rápida, que depois foi se tornando obrigação? Acertou quem disse: ela! Embora ajude a colocar as roupas no varal,  ele sequer coloca as cuecas na máquina de lavar. Por que será? E olha que estamos em 2016...

(*) Todo o parágrafo foi inspirado em:
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Dica de leitura: Dom Casmurro

A dica de leitura de hoje é um livro já velho conhecido nosso: Dom Casmurro, de Machado de Assis.

 Particularmente, eu não gosto de Machado de Assis, apesar de reconhecer sua importância para o realismo brasileiro e saber que seu estilo, sua ironia. Sua forma de narrar agrada a muita gente. É apenas uma questão de gosto pessoal.

 Porém, Dom Casmurro me surpreendeu. Muito se fala sobre a estória e personagens (desculpem-me, detesto a recomendação pela grafia “história” mesmo para obras de ficção. Para mim, marcar a diferença entre história-ciência e história-ficção [estória] é imprescindível aqui), ou se Capitu traiu ou não traiu Bentinho, o que me parece não ter a menor importância no contexto geral da narrativa.

Trata-se de uma estória de ciúmes, como tantos outros livros ao longo da história. Mas há sutilezas desse ciúme que é diferente dos que estamos acostumado a ver [ler]. O texto é narrado, como tantos outros, pela perspectiva de um homem, mas é um amigo de infância que virou marido, e tudo se passa na cabeça de Bentinho. Tendo crescido juntos, ele julga conhecê-la mais do que ela a si mesma, saber suas intenções, seu jeito de olhar e agir. Fica a dúvida se tudo aconteceu por pura imaginação dele, ou não. Mas isso não importa...

A forma como Bentinho vai se tornando casmurro ao longo da estória, em função do ciúme - e o que ele faz com Capitu e seu filho - nos dão a dimensão exata de uma época em que a mulher não tinha qualquer direito e o homem era o senhor.

Não é uma narrativa machista, é uma estória sobre o machismo que nos faz pensar sobre os prejuízos que dele resulta. No final do livro, um desfecho que nos deixa [a nós, os homens] num vácuo, a refletir.

Para mim, foi uma estória angustiante, mas que serviu para me mostrar como não se deve ser. Vale a leitura!